São Carlos não é exatamente um exemplo de pacata cidade do interior paulista, mas poucos imaginam que por ali um drone costumava carregar uma maletinha amarela com encomendas. A entrega partia da Pão to Go, uma padaria drive thru no centro, e seguia em direção a um condomínio a cerca de um quilômetro dali. Lentamente, o drone pousava no quintal, deixava o pacote e retornava para a padaria. Sem pedir gorjeta.

A cena não é nova, nem foi protagonizada por algum parceiro da Amazon. Aconteceu em 2014. Para você ter ideia, só em fevereiro deste ano a Nasa (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço) realizou os primeiros grandes testes em Nevada (EUA) para criar a engenharia do tráfego para as entregas do futuro.

São Carlos, também conhecida como a capital brasileira da tecnologia, só não fez história, porque o empresário Tom Ricetti estava alguns pés à frente (ou acima) de seu tempo. A ideia era uma espécie de locomotiva sem trilhos, e esbarrou nas normas de tráfego aéreo do país.

Ele lembra que os testes renderam a ele um processo administrativo da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). A notificação começava de forma curiosa: a agência parabenizava a iniciativa pelo empreendedorismo e pioneirismo, mas alertava que os testes estavam proibidos e cobrava uma multa.

“Nos defendemos judicialmente e escapamos da punição”, contou Ricetti para a reportagem. “Disseram que haveria uma legislação até o fim do mesmo ano para a regulamentação da Operação de Drones. Isso só aconteceu anos depois.”

Drones, os entregadores de amanhã.

O empresário de São Carlos viveu há 5 anos o que agora começa a se desenhar nos céus de muitos países. No fim de maio, a cidade de Reno, em Nevada (EUA), conhecida como “a maior menor cidade do mundo”, parou para ver a simulação de como será o espaço aéreo do futuro.

“Estou um pouco nervoso”, disse um morador, em entrevista à rede CNBC, que registrou in loco o enxame de drones pelos céus da cidade.

Novos testes voltaram a acontecer na cidade em junho, e não chamaram a atenção apenas dos habitantes locais. Em visita aos EUA, o presidente da Polônia, Andrzej Duda, acompanhou de perto as demonstrações do alto de um antigo posto dos correios. Estava acompanhado de engenheiros poloneses, interessados em levar a tecnologia para a Europa –pouco antes, o presidente Donald Trump havia anunciado a intenção de enviar drones de vigilância e mil soldados americanos à Polônia, o que provocou reação da Rússia, que prometeu monitorar “de perto” os movimentos.

Geopolítica à parte (ou não), desde 2015 a Nasa desenvolve experimentos para construir um sistema nacional para gerenciar o chamado tráfego aéreo de baixa altitude. A expectativa é que centenas de milhares de drones sejam registrados nos EUA para uso comercial até 2020.

Panorama dos drones sendo testados para entregas em Nevada (EUA)

Muito mais do que entregas.

Além de entregas, eles poderão monitorar o tráfego de automóveis, inspecionar a rede elétrica e obras de infraestrutura, como pontes, e atender emergências.

Chamado de UTM (Gerenciamento de Tráfego de Sistemas de Aviões Não Tripulados), o projeto é liderado pelo Ames Research Center, da Nasa, no Vale do Silício, na Califórnia, em parceria com agências federais, como a Federal Aviation Administration (FAA), e parceiros acadêmicos e comerciais. Nas ruas bloqueadas para testes em Reno, a agência espacial simula diferentes cenários com vários drones voando ao mesmo tempo sobre as ruas e entre os prédios.

Em um comunicado, a agência informou aos moradores que eles não precisariam se preocupar com questões como poluição sonora (“os ruídos serão limitados”) nem com interferências na rede wi-fi, e que questões como a privacidade dos moradores serão resolvidas em breve, pelas agências reguladoras.

Empresas já estão na nova corrida espacial.

Enquanto a nova engenharia de tráfego é desenhada, as empresas já se antecipam ao futuro. Recentemente, a Uber venceu uma licitação da Federal Aviation Administration (FAA), dos EUA, para testar entregas de comida com drones em San Diego. O serviço, segundo a companhia, será impulsionado pelo Elevate Cloud Systems, um sistema de gerenciamento de espaço aéreo que rastreia e guia voos de drones da decolagem até o pouso.

A fase inicial de testes em San Diego foi feita com o McDonald’s e será ampliada para outros restaurantes parceiros do Uber Eats ainda em 2019. O objetivo é que os clientes possam pedir hambúrgueres voadores em larga escala a partir de 2023 –logo ali, diria um apresentador mais empolgado.

“O Brasil tem tudo para voar”.

A 9.813 quilômetros do epicentro dos testes, Tom Ricetti acompanha com atenção as notícias vindas de Nevada. “Esses projetos estão engatinhando no mundo inteiro, e aqui vai demorar um pouco mais para chegar. Nossos testes em São Carlos funcionaram perfeitamente. Se a parte de burocracia não emperrar, o Brasil tem tudo pra voar.”

Até lá, o empresário aposta em outros projetos de logística não tradicional, como ele mesmo define. Desta vez, com os pés (e as rodas) no chão. O próximo passo, adianta ele, é lançar uma bicicleta de entrega autônoma em condomínios fechados.

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